quarta-feira, 31 de julho de 2013

Clássicos da literatura mundial: especial para o dia do orgasmo


O orgasmo é o ápice de prazer durante uma relação sexual ou masturbação. Muito se diz sobre o surgimento do Dia Internacional do Orgasmo. De acordo com a Wikipedia, aconteceu após uma pesquisa que constatou que mais da metade (para não dizer os 80%) da população inglesa (ok, as mulheres) não chegava ao orgasmo. Indignados, sex-shops resolveram cravar o dia 31/7 para celebrar esse raro momento na vida das mulheres (ou dessas mulheres). Com ou sem orgasmo, resolvemos falar sobre livros que contém cenas mais picantes, não somente sobre o ato em si, mas da insinuação, sexualidade e até masturbação! Como diria Marta Suplicy, relaxa e goza (e continue lendo).


A insustentável leveza do ser, de Milan Kundera,  a julgar pelo título, uma reflexão morosa sobre filosofia. De fato, há filosofia no livro, mas não se enganem, entre os muitos elementos fundidos nessa história há também muito erotismo. O sexo é um dos temas prediletos de Kundera,  mas deste livro em especial penso sempre em primeiro lugar em uma personagem, Teresa, e na sua prolongada luta contra seu próprio corpo. Em muitos momentos ela se vê, nua, frente a um espelho, buscando se identificar e se livrar da constante consciência da distância entre mente e corpo que a assombra. Na sua primeira relação com Tomas ela grita, forte o bastante para silenciar seus sentidos. “Sensualidade é a completa mobilização dos sentidos”, diz Kundera – essa talvez seja uma lição importante para Teresa, mas não penso que o escritor pretenda uma solução simples válida para todos os casos. Cada personagem parece experimentar o sexo de uma maneira diferente e buscar diferentes formas de se satisfazer. Assim, Kundera evita descrições muito detalhadas do ato sexual em si (talvez porque, como sugere a certa altura, a excitação está a apenas um passo do riso), e se concentra nesse universo mais sutil de expectativas e desejos, um universo psicológico privado, que o leitor vem espreitar como um voyeur.

Escrito no final da década de 1920, O amante de Lady Chatterley foi banido na época de seu lançamento por conta das cenas de sexo descrevendo os encontros de Lady Chatterley com o guarda-caça Mellors e de inúmeros palavrões considerados fortes para a época. Por conta disso, o romance só foi publicado novamente em seu país de origem na década de 1960, e isso porque a editora Penguin investiu pesado em um processo para que tivesse permissão para tal. E é uma pena que o livro tenha ficado escondido (ou sob o estigma de “proibido”) por tantos anos, considerando  como através de uma história do despertar da sexualidade de uma mulher, D.H. Lawrence apontava o despertar de uma nova Inglaterra – do que aconteceu com seu país após a Grande Guerra. E é importante destacar que Lawrence tem a medida certa para escrever sobre sexo: consegue ser envolvente sem ser vulgar. Há também de se considerar a importância da obra para a desmistificação do sexo – mesmo na Literatura – em frases marcantes como as ditas por Mellors nos encontros com sua amante, como por exemplo “Na verdade o sexo é apenas toque, contato, o contato mais próximo que pode existir. E é o contato que nos mete medo. Vivemos num estado de semiconsciência, vivemos apenas pela metade. Precisamos nos tornar mais vivos e conscientes. Especialmente os ingleses, precisam entrar em contato uns com os outros, um contato delicado e terno. É nossa maior necessidade“.

O livro de praga (Sérgio Sant’Anna): A família Sant’Anna tem um dom extraterrestre de descrever e sugerir cenas de sexo. Esse exemplar, parte da série Amores Expressos, traz cenas de masturbação não usuais, fetiches comuns e taras sacras. Imagine que o personagem principal tem um orgasmo durante um concerto particular, com uma pianista que consegue masturbar o ouvinte e usar seu pênis para tocar as teclas do piano. A música dá todo o tom especial àquela boa gozada. Em outro momento, ao deparar-se com uma estátua que representa uma Santa da Igreja Católica, o protagonista-escritor que viaja a Praga para escrever um livro sobre amor, imagina-se tocado por ela – e não da maneira espiritual -, tudo isso desencadeado por causa de seu envolvimento com uma suicida. Não tem como dizer que é um livro sexy e que suas cenas são de uma descrição que até ouriçam o leitor, mas são situações inusitadas e muito bem elaboradas, mesmo a cena em que representa uma das taras mais famosas desse verão: a BDSM. Para o dia do orgasmo é uma boa pedida para sair das “transas” rotineiras da literatura.

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, de Marçal Aquino anuncia uma história de amor, que soa ao mesmo tempo triste e devastadora, o que de fato acontece. O furacão responde pelo nome de Lavínia, que assume uma personalidade dúbia – unindo em uma mesma figura a santa e a louca. Falam uma da outra em terceira pessoa, enlouquecendo os homens ao redor, principalmente o narrador da obra que responde pelo nome de Cauby. A santa ama o marido, a louca deseja amante. É nos momentos de desejo que Lavínia procura pelo fotógrafo Cauby. Marçal Aquino não precisa de muitas palavras ou detalhes para descrever cenas tórridas de sexo, algumas pistas são deixadas pelo narrador no meio do caminho, e o restante é feito pela imaginação do leitor. As pistas anunciam que Lavínia realiza todos os desejos sexuais do fotógrafo, prefere o sexo fora da cama e a não abre mão da posição cachorrinho. Mas o que mais surpreende é a cena inicial que precede a primeira vez dos dois, ambos na casa do fotógrafo, ela aconchega-se nele e anuncia a sentença: “Entra em mim”. A fala é ao mesmo tempo vulgar e delicada, anuncia a necessidade do sexo urgente, do gozo imediato e convida o leitor para entrar no livro, assim como Cauby entrou em Lavínia, e aproveitar até o último gozo de prazer dado por Marçal Aquino.

A casa dos budas ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, foi escrito para uma coleção chamada Plenos Pecados, cuja proposta era publicar um livro para cada pecado capital. O autor de Viva o povo brasileiro pegou a Luxúria e escreveu um romance narrado por CLB, uma baiana de 68 anos “que jamais se furtou a viver – com todo o prazer e sem respingos de culpa – as infinitas possibilidades do sexo”, e que resolveu gravar sua história para ser transcrita por um escritor conterrâneo seu. O romance foi adaptado para o teatro em 2004 e a atriz escolhida para o papel principal, Fernanda Torres, faz suspeitar de outro ponto forte do livro: o humor. A leitura em voz alta quase certamente levará a boas risadas: uma leitura entre amigos costuma ser memorável, tanto melhor quanto conseguirem encontrar o tom de voz, natural e debochado, dessa baiana arretada. Nesse sentido, lembra aquilo que o Gigio falou acima sobre excitação e riso na obra do Kundera. Por outro lado, a extensa variedade de quantidade e tipo de participantes (e também do que cada um faz) nas cenas sexuais faz do livro uma espécie de libelo contra o preconceito, tal como uma Marcha das Vadias em papel. O livro não se detém nas ocasionais preferências de sua protagonistas (se é que ela tem alguma) nem nas experiências pessoais dela, o que permite que haja um amplo panorama dos modos de se relacionar entre quatro paredes. Não que CLB se limite às quatro paredes.

Henry, June e eu (Anaïs Nin) é uma compilação do diário da autora no início dos anos 30. Casada e apaixonada por seu marido Hugo, Anaïs é uma jovem em pleno vigor intelectual e sexual, contente em explorar ambas as vertentes ao máximo. Nestes excertos de diário, a autora descreve seu relacionamento com o escritor Henry Miller e com sua esposa June. São cenas quentes, de alto teor erótico, ainda mais pungentes por se tratarem de confissões de sua própria vida. Conhecemos suas relações com seu marido, com o escritor, sua esposa e até desconhecidos; mas Anaïs escreve com tal lirismo, tal força poética, que nos imerge nessa roda viva sexual e ao mesmo tempo romântica. Ela nos leva a ver a beleza da entrega física o ato como algo belo e nunca tabu. Meu momento preferido é sua entrega a um estranho mascarado no Mardi Gras, que na verdade era seu próprio marido. Livro para ler para alguém, com alguém…

A Fugitiva (Anaïs Nin) – Três contos e muitas fantasias eróticas. Anaïs Nin explora cada microssegundo e cada milímetro da sensualidade e da provocação em três histórias de diferentes relações amorosas. O despudor das narrativas, que as dota de um alto valor erótico, procura criar uma aura muito mais ampla e profunda em torno das relações carnais, mostrando-as como experiências voluptuosas de muitas camadas e nuances, numa cadência tão ritmada quanto frenética. Sem descambar para uma vulgaridade per se, a autora francesa nos apresenta os hábitos e perversões de alcova do basco e de Bijou, ele um homem de costumes sexuais ortodoxos, ela uma ex-cortesã; de Manuel, cuja antecipação do sexo é mais excitante que o próprio ato em si; e a fugitiva Jeanette, que encontra na casa de Pierre e Jean o fogo de uma relação que a faz transpor o limiar que existia entre a menina e a mulher.

Alguns destes livros já estão em uso público e disponíveis para baixar na internet. Aproveite a leitura.

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