terça-feira, 6 de agosto de 2013

Curas milagrosas para defeitos invisíveis


Campanha do Carefree em SP: neutralize seus odores ou vire abóbora.

O maridão estava lendo uma revista antiga (ele gosta de ler revistas antigas, de dez, vinte anos atrás, e se tivesse algumaCruzeiro dando sopa por aqui, ele também a leria), e ficou perplexo com a entrevista de um publicitário brasileiro que foi encarregado de lançar o Carefree no Brasi
l. Sabe, aqueles “protetores diários”, pequenos, que não são absorventes? O carinha dizia que as mulheres não entendiam pra que servia aquilo e que, no começo, usavam como absorvente, e não funcionava. Eu lembro de uma vez que um chefe brucutu chegou pra mim e pra algumas colegas e perguntou: “Pra quê serve um treco como o Carefree? Vocês não trocam de calcinha todo dia?”. E as outras moças, envergonhadas, tentavam argumentar que, sim, Carefree é de suma importância, e elas nem sabiam como conseguiram sobreviver sem o troço por tantos séculos. Eu não me contive e, apesar de discordar desse meu patrão 100% das vezes, respondi: “Você tem razão, bossNão serve pra nada mesmo”. Porque, né? Cá entre nós. É totalmente inútil mesmo.
Mas o maridão lá, se identificando com a dificuldade do publicitário, tadinho, que tinha que encontrar uma utilidade praquele produto. Parece que o maridão nunca leu meu blog
Convenhamos, não é difícil vender um produto pra mulheres. Quase todos os produtos direcionados pra gente são comercializados em cima de alguma insegurança. Primeiro cria-se um defeito, aí vem um produto pra sanar esse defeito. No caso do Carefree, é o nosso cheiro que não presta, ou é um corrimento que vai manchar tudo, ou é que somos tão sujas que deveríamos trocar de calcinha cinco vezes por dia, mas, como não podemosusamos um protetor diário, que vai nos proporcionar grande conforto e segurança. É como a invenção da celulite. Não existia nem palavra pra isso até a década de 70. Os furinhos, ou sei lá o quê, que muitas mulheres têm na perna e no bumbum não eram vistos como defeitos. E hoje existe uma indústria bilionária faturando em cima desses furinhos.
Outro dia eu tava vendo aquela besteira que é o Jornal Hoje. Eu não vejo TV, e realmente odeio aquele telejornal, mas o maridão insiste em ligar a televisão e tirar um cochilo depois do almoço, antes de ir trabalhar. Então muitas vezes acabo vendo algum pedacinho também. Eoutro dia inventaram um defeito que eu nem sabia que tinha. Disseram que mulheres não podem dar tchau efusivamente com os braços, só um tchauzinho discreto, porque embaixo dos braços há muita gordura, e essa gordura balança quando se mexe o braço. Sei que estou longe de ser uma consumidora antenada, mas eu aqui, com 42 anos nas costas (e nos braços), nunca tinha me dado conta desse gravíssimo defeito que é a parte interna dos meus braços (deve até haver um nome pra isso, eu é que não sei). Quer dizer, e daí se um pedacinho de mim se mexer enquanto eu movimento meus braços? Meus seios também balançam quando ando, apesar do esforço do sutiã para restringi-los. Isso deve ter ligação com aquilo de ensinar meninas de oito anos a andarem de salto alto e fazerem chapinha no cabelo. Aí elas não brincam na escola como as outras crianças, porque não dá pra correr com salto alto, e vale tudo pra não desmanchar o penteado. O objetivo de tudo, portanto, é restringir os movimentos femininos? E movimento lembra liberdade? Estou começando a ver um padrão.
Mas voltando àquela partezinha embaixo do braço que se mexe quando a gente dá tchau (só nas mulheres, ok?). O Jornal Hoje entrevistou personal trainers e foi a academias de ginástica, tudo pra ensinar a gente como endurecer esse pedaço desagradável da nossa anatomia. E eu devo ter perdido os comerciais no meio, que provavelmente vendiam creminhos pra enrijecer o braço. 
Outro dia o Jornal Hoje noticiou sobre os cankles, nome recente de uma invenção americana pra se referir àquele pedacinho do tornozelo que não se diferencia muito da perna. Sei lá, eu não entendi direito. Mas li que um estilista modificou algumas Barbies porque as roupas que ele havia criado não caíram bem nas bonecas, porque elas (as bonecas, não as roupas) não tinham tornozelos bem definidos, e sim cankles. É, sabe aBarbie, aquela boneca que representa fielmente o corpo feminino? Nem ela é perfeita. Na reportagem do Hoje, dicas de exercícios físicos para corrigir oscankles, e entrevistas com cirurgiões plásticos, que sim, já se deram conta do problema seríssimo que os canklessignificam pra autoestima feminina. 
Mas é aquele negócio, certo? A gente não é influenciada pela mídia, imagina. A gente usa Carefree porque quer. Cirurgia pra tratar os cankles, creminhos pra tratar a celulite, horas de academia pra tratar a parte interna dos braços—tudo isso é uma escolha pessoal. Porque o importante é que a gente se sinta bem, sempre. 
Convenhamos, não é difícil vender produtos pra mulheres. 

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