terça-feira, 20 de agosto de 2013

Entrevista: Joyce Matsushita

Por Lisa Tondato

Joyce Matsushita é uma das precursoras da mobilização plus size no Brasil (inclusive ela quem introduziu o uso do termo). Jornalista e assessora de imprensa, abriu na mídia nacional um espaço de respeito para mulheres que estão fora do padrões estabelecidos pela própria mídia, enfrentando todo tipo de preconceito de colegas de profissão. Esta ousadia democratizou um Mercado que até então era clandestino no Brasil, o de moda grande, o então plus size. Agora, retorna a este cenário em busca de mais profissionalização para o setor. 
Alguém duvida que ela consegue? Nós não!


foto: acervo pessoal

CaP Como foi o início da sua carreira profissional? 

Joyce Eu sou jornalista e desde pequena sempre sonhei com esta profissão. E sempre que me perguntavam o porquê dessa escolha, eu sempre respondia com um ideal: achava que poderia ajudar ou mudar a vida das pessoas para melhor. E foram anos enfurnados dentro de redações de jornais e revistas. Até que um dia descobri a assessoria de imprensa e com ela uma nova revelação: que eu podia não só ajudar as pessoas, como também realizar os seus sonhos. E mudar a vida de alguém é algo incrível.

Fui buscar conhecimento nas maiores agências de assessoria de São Paulo e trabalhei com clientes que muitas pessoas sonhavam atender, como com o desenhista Maurício de Sousa e a Maurício de Sousa Produções. Em quase 10 anos de profissão, atendi clientes de diversas áreas como Bobs, Pizza Hit, Grupo Transamerica, Associação Brasileira de Música, Associação Paulista de Medicina, a Corel de software, entre outros. E durante esse tempo fui me aproximando e ganhando mais intimidade com o segmento de saúde, beleza e bem estar, tornando-me referência entre os jornalistas da área.

Era tudo o que eu precisava para abrir a minha própria empresa, em 2008, a Making Off Comunicação Estratégica.


Joyce com Fluvia Lacerda
CaP Quando você optou pelo segmento Plus Size?

Joyce Um dia, recebi uma ligação inesperada de uma mulher chamada Fluvia Lacerda que se dizia modelo. E o assunto não me causaria estranheza se não fosse pelo fato dela ser uma modelo gordinha e que começava a despontar no mercado internacional. Enquanto conversava com ela, minha cabeça deu um nó. Como ela poderia ser modelo e gordinha? Sempre fomos ensinados “visualmente” e “socialmente” que os padrões de beleza estavam enraizados em corpos magérrimos e naquelas figuras esqueléticas em cima das passarelas. Aquele telefonema, de algum modo, quebrava todos os paradigmas que até então eu conhecia. E foram meses de conversas. E quanto mais eu escutava, mais aquilo fazia o meu olho brilhar. E passei a pesquisar tudo sobre esse mercado no Brasil e no exterior.

No Brasil, descobri o mercado de roupa GG. Estereotipado, com roupas feias destinadas às nossas avós e dentro de um cenário degradante. Na mídia, os gordinhos só eram personagens quando as matérias falavam de doenças cardiovasculares, os riscos da obesidade e diabetes. Algo como: faça já o seu plano de saúde porque os seus dias estão contados. Um futuro nada promissor e sem expectativas.

Mas eu já tinha sido contaminada por aquele conhecimento e precisava fazer alguma coisa a respeito. Então se não havia caminhos para trilhar, teria que construir o meu próprio caminho. E durante 6 meses criei um planejamento meticuloso porque a linha entre o ridículo e o bonito era muito tênue. E para trazer esse assunto para o País, precisava de um cenário não tão desfavorável como era o mercado de roupa GG já tão estereotipado. Então, decidi trazer para o Brasil o termo “plus size”, que agregaria ao mercado GG auto-estima, beleza e valorização.

CaP Nesse momento que optou, você achou que isso iria mudar sua vida de alguma maneira ou achou que seria algo de momento?

Joyce É difícil responder essa pergunta com palavras porque foi algo mais sensitivo do que racional. Eu me senti responsável por contar aquela história tão incrível, de mostrar para as pessoas que para ser bonita e feliz não precisava ter um corpo escultural, mas uma questão de aceitação e democratização dos diferentes tipos de beleza. Me apaixonei por aquele novo mundo e não podia ficar sem fazer nada à respeito. Foi um grande desafio porque ninguém acreditava no mercado GG. Quando eu conversava com colegas jornalistas sobre a tal modelo, todos riam e diziam que esse assunto nunca seria popular no País. Lembro como se fosse hoje: Brasil é a terra das cirurgias plásticas e a cultura dos corpos perfeitos. Isso nunca vai virar por aqui.

A partir daí tive uma ideia do tamanho do problema que estava caindo em minhas mãos. Mas nunca fui de fugir dos desafios e me joguei de corpo e alma. E não me arrependo, afinal, foram anos de aprendizados incríveis.

foto: Kelly Hato

CaP Você fez assessoria de imprensa para Fluvia Lacerda, muitos anos, como foi essa experiência? 

Joyce O planejamento que desenvolvi consistia em três momentos: mostrar quem era Fluvia Lacerda e torná-la referência mundial, depois criar um movimento de aceitação do público e a elevação da auto-estima e o terceiro era para falar de mercado e moda e mostrar a falta de opções para mulheres com manequins maiores.

E o primeiro ano não foi fácil. Os jornalistas riam quando eu ligava para oferecer o assunto. Lembro que uma editora de moda me disse: nunca uma gorda vai estar nas páginas da minha revista. Mas eu sabia que era uma questão de insistência e de tempo para quebrar aquela ditadura da magreza.

Em um ano e meio, já tínhamos sido destaque dos principais veículos do País, como Folha e O Estado de S. Paulo, IstoÉ, Época, programas como Jô Soares, Faustão, Altas Horas, Amaury Jr, Gugu, Hoje em Dia, Programa da Xuxa, Bate Papo do Uol, entre muitos outros.

Neste período, ainda como assessora de imprensa da Fluvia Lacerda, sentei com a diretora de uma das maiores agências de modelos do País e consegui que aceitassem agenciá-la e, inclusive, abrir uma divisão na empresa voltada a este segmento. Mas a inexperiência deles dentro deste mercado fez com que nada andasse em 4 meses. Então, naquele momento, mesmo sem nunca ter trabalhado com moda e agenciamento, me tornei empresária da Fluvia Lacerda.

E pouco a pouco consegui abrir um espaço nunca antes conquistado na mídia: os tão sonhados editoriais de moda. Ah, e aquela editora de moda lá atrás que disse que uma gordinha nunca estaria nas páginas de sua revista, enfim se rendeu e publicou um belíssimo editorial de 4 páginas. E como empresária consegui fechar contratos e cachês nunca antes sonhados pela indústria plus size brasileira, equilibrando com os praticados no exterior.

Depois disso, o assunto tomou conta do País e todo o esforço que fiz para dar essa visibilidade e credibilidade ao segmento, foi reconhecido na Semana de Moda Plus Size de NY, o maior e mais importante evento do mundo.

foto: acervo pessoal
CaP
Qual foi a maior dificuldade para trazer o Plus Size para o Brasil?

Joyce A maior dificuldade foi restaurar a imagem de um mercado já tão desfavorável na mídia. Mesmo com um nome diferente, ainda se tratava do mesmo assunto: tamanhos maiores. Criar essa boa imagem e reputação foi certamente o maior desafio e só deu certo porque me empenhei muito nesse corpo a corpo com a imprensa. Para quem pensa que foi fácil, imagina que só consegui a primeira matéria depois de 6 meses de contatos, encontros e muita conversa com uma determinada emissora.

CaP Onde foi a primeira oportunidade?

Joyce A primeira matéria foi no Domingo Espetacular, da Record. Foi um momento crucial para o nosso trabalho porque se a matéria não ficasse boa, certamente não teríamos a chance de dar continuidade à execução do meu planejamento. Então, essa primeira aparição tinha que ser perfeita. E para isso, vivenciamos duas semanas de intensa correria. A repórter foi para Nova York com antecedência para conversar com a Fluvia e saber mais sobre a sua história. Ao mesmo tempo, eu conversava aqui diariamente com a produção do programa para descartar o risco de qualquer tipo de erro. Fora isso, ainda tinha que ajustar o discurso da Fluvia, pontuar onde seriam gravadas as externas e pedir as autorizações, simular uma sessão fotográfica, etc. Foi bem estressante, mas o resultado final ficou incrível. Tivemos nada menos do que 15 minutos de exposição. E, segundo a produção do programa, foi uma das matérias de maior repercussão naquele ano.

CaP Após todos os anos de a parceria e trabalho, quando você percebeu que teria que deixar Fluvia?

Joyce Ao longo dos 7 anos de casamento profissional, fui tendo contato com as dificuldades do mercado e de outros profissionais inseridos neste setor. Entre viagens a trabalho e sessões fotográficas com a Fluvia, passei a rascunhar alguns projetos visando à profissionalização do setor e formas de contribuir para que o plus size não ganhasse exposição na mídia apenas por ser novidade, mas sim pela qualidade. No ano passado, senti que já tinha cumprido minha missão junto à Fluvia elevando o seu nome e trabalho para o mundo inteiro e que precisava fazer alguma coisa pela saúde e crescimento do mercado brasileiro. E nesta época, a Fluvia também queria investir no lançamento da sua própria grife. Então, foi uma decisão mútua e muito saudável.

CaP O que te levou a isso?

Joyce A possibilidade mútua de encararmos novos desafios e de continuarmos, mesmo separadas, a agregar qualidade ao mercado plus size.

Encontro com blogueiras e modelos plus size, uma das iniciativas para a mudança do Setor. Foto: Kelly Hato


CaP O que seria a renovação ou revolução do Plus Size no Brasil?

Joyce É um novo momento que devemos vivenciar de profissionalização do mercado plus size em todas as suas frentes. Desta forma, poderemos garantir um crescimento sustentável para o mercado, criar oportunidades e, sobretudo, mostrar qualidade.

CaP E a profissionalização no mercado Plus Size, qual sua opinião?

Joyce Sem isso, o mercado vai continuar crescendo de forma desordenada e sem a qualidade necessária.

CaP Você tem alguns planos no Brasil, em relação ao Plus Size, tem algum que você queira revelar pra gente?

Joyce Eu e minha equipe estamos desenvolvendo vários projetos que visam trazer essa profissionalização para o mercado brasileiro. O primeiro, que deve ser lançado até o final deste ano, será focado na profissionalização de modelos e new faces. O conteúdo está 100% fechado e montamos uma equipe só com profissionais experientes. Esse workshop será realizado por módulos, uma vez que temos muito conhecimento para compartilhar. Esperamos, dessa forma, contribuir para o crescimento de um mercado mais competitivo e que priorize a qualidade. E que, sobretudo, também seja referência de moda.





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