quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Experts discutem a eficiência de novas drogas que prometem devolver a libido às mulheres

Só pílulas resolvem? Especialistas falam sobre as consequências do novo "Viagra feminino", que promete despertar o desejo das mulheres em três horas e meia.


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 Foto: Thinkstock
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Um dos maiores impasses da psicanálise, admitia Sigmund Freud, era entender a libido feminina. Tanto que uma de suas frases mais famosas é: "Afinal, o que querem as mulheres?" E ela continua fundamentando pesquisas científicas no mundo todo. Após décadas de trabalho, os estudiosos parecem ter chegado a um consenso: o desejo sexual feminino depende de muitos fatores para existir. É por isso que a pergunta de Freud segue sem uma resposta definitiva. Agora, a chegada de duas drogas que podem mudar a relação das mulheres com o sexo deixa os especialistas ainda mais intrigados. À base de testosterona, vasodilatadores e substâncias que atuam no cérebro, Lybrido e Lybridos são duas fórmulas "primas", desenvolvidas por uma empresa holandesa, que prometem esquentar as entranhas femininas em três horas e meia. Bastaria colocar uma pílula sob a língua. No momento, a eficácia e os efeitos colaterais das medicações estão sendo testados pelas autoridades americanas. Se aprovadas, elas deverão começar a ser vendidas nos Estados Unidos em 2015. Convocamos especialistas para discutir as mudanças que um "Viagra feminino" pode causar na cama e na vida das mulheres.
Sexo a vida toda
Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos da Sexualidade (ProSex), do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo
"Vamos precisar estudar caso a caso, mas acredito que, se eficientes e com poucos efeitos colaterais, os remédios Lybrido e Lybridos poderão ser indicados para mulheres mais velhas, que, por questões hormonais, estão com a vida sexual comprometida. Em geral, entramos na menopausa aos 50 anos, quando há uma diminuição da produção de testosterona (presente nas duas medicações) e, consequentemente, do desejo. Essas medicações podem ser de grande valia para nos deixar ardentes na maturidade. Pelo menos, resolve a questão química, mas não os fatores emocionais. De qualquer forma, é bom para essa geração de mulheres que se mantêm ativas em vários aspectos e também querem ter uma vida sexual satisfatória. Continuando a transar, usufruímos efeitos colaterais positivos. Por exemplo, hoje se sabe que quem faz sexo com frequência (o que não quer dizer quantidade, mas constância) tem maior capacidade de aprendizado, memorização e cognição. Além disso, a relação sexual envolve gasto de energia, libera ocitocina, que dá sensação de pertencimento, e deixa pele e cabelo bonitos."
A ditadura do prazer
Mirian Goldenberg, antropóloga e autora de "Tudo o Que Você Não Queria Saber sobre Sexo" (Record)
"Certa vez, ouvi de uma entrevistada: 'Para a mulher, as preliminares não são os 15 minutos que antecedem a penetração. É tudo o que acontece na vida dela nas outras 23 horas e 45 minutos'. Essa imagem ilustra bem a complexidade da nossa sexualidade. Se trabalhamos demais, estamos cansadas ou vivemos um relacionamento desgastado, não há preliminar, lingerie, filme erótico ou remedinho que resolva. A gente pode até gozar graças a ele, mas não significa que teremos uma vida sexual mais feliz. Nas minhas pesquisas, vejo que as mulheres reclamam mais da falta de romance e carinho do que da baixa frequência das transas. Será que vão inventar remédio para isso? A chegada de uma 'pílula milagrosa' pode acabar gerando, inclusive, uma cobrança pela prontidão sexual feminina e jogar sobre as mulheres mais uma exigência. Para muitas de nós, o sexo hoje é uma tarefa. O que era uma conquista virou obrigação. Mais: vivemos uma ditadura do prazer - e é preciso cuidado para não reforçar esse padrão."
A era do desejo
Mary Del Priore, historiadora e autora de "Histórias Íntimas" (Planeta do Brasil)
"Foi nas primeiras décadas do século 20 que os conceitos de reprodução e sexualidade começaram a se separar. Até então, as relações sexuais dividiam-se entre as voltadas para a procriação e as mais erotizadas, que visavam o prazer. E essa divisão coincidia com aquela que separava as mulheres puras das impuras. No século 21, a discussão é outra. E a pílula rosa parece tomar o lugar das opiniões médicas. Pesquisas realizadas na Europa mostram que as mulheres são muito ativas no início das relações amorosas. Depois de três ou quatro anos, porém, com a rotina, a chegada dos filhos e o cansaço, o desejo parece desaparecer. Ele reacende mais facilmente diante de um novo encontro. Por isso, há quem se pergunte se a questão está ligada à libido ou ao tédio. A dúvida que fica é: as mulheres se tornarão mais monogâmicas ou sexualmente mais agressivas com a nova droga? E mais: será que sociedades patriarcais, como a brasileira, suportarão as 'ninfômanas'? O melhor, então, é esperar para ver os resultados na prática."
Ajuda pontual
Carolina Ambrogini, ginecologista, sexóloga e coordenadora do Projeto Afrodite, da Universidade Federal de São Paulo
"Existem quatro grandes causas da diminuição de libido na vida de uma mulher: as alterações hormonais, a depressão, a educação sexual repressora e o desgaste no relacionamento. Por isso, acredito que um remédio feminino não será a mesma maravilha das medicações para os homens - a libido masculina é mais simples do que a nossa. Acho que essas novas drogas podem ajudar muito as mulheres que estão em relacionamentos longos e que perderam o tesão, desde que elas vivam em uniões saudáveis, com amor e respeito, porém sexualmente desgastadas pela rotina. Se mantiverem um casamento apenas de fachada, se não houver intimidade entre os parceiros, dificilmente uma medicação poderá fazer algo pela libido delas. Vale lembrar que sempre poderão ser incorporadas à rotina dos casais longevos antigas técnicas de erotização, como filmes e livros, para que não dependam de remédios."
Sedução em jogo
Alberto Godin, psicanalista e autor de "Histórias de Amor e Sexo" (Objetiva)
"Muitas coisas podem excitar uma mulher: os valores de um homem, a fama, a intelectualidade... É esse mistério feminino que fascina o sexo oposto e faz com que haja um jogo de sedução e poder. Para os homens, ver a parceira atingir o orgasmo é como encontrar a combinação certa de um cofre: traz uma grande sensação de orgulho. Acredito que um remédio que deve deixá-las mais excitadas, e com mais facilidade - mudando, dessa forma, os gatilhos do desejo -, altera completamente as regras da sedução. Mas, se elas começarem a ter uma necessidade de satisfazer a libido instantaneamente, não sei se os homens serão capazes de responder a essa demanda. Talvez até tenhamos maior procura e oferta de produtos eróticos femininos e garotos de programa."

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