sábado, 3 de agosto de 2013

Série Açougue: Pés

Texto de Marília Coutinho. Blogueiras Feministas
Ela nunca teve chances: com três ou quatro anos de idade, foi simplesmente silenciada. Seus pezinhos em formação foram mergulhados em líquidos pútridos no preparo para o ato em si. Pegaram um dos pés e dobraram o dedão para trás até romper ligamentos, tendões e quebrar os ossos. Feito isso, comprimiram o calcanhar em direção ao apoio anterior do pé. Os ossos do arco foram quebrados para isso. Fizeram o mesmo com o outro pé. A mãe foi afastada para não ouvir seus urros de dor.

Foto de John C. Bullas no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Com ossos quebrados, ligamentos e tendões rompidos, os pés dela foram amarrados na posição deformada. A cada dia apertavam mais as ataduras. Quando finalmente pode encostar os pés no chão, a dor lancinante indicou o que seria sua vida para sempre: sofrimento físico e imobilidade. Uma prisão feita não com grades ou correntes, mas com a inutilização da ferramenta humana para locomoção: os pés.
Essa menina não é uma pessoa específica. O formato emscript dramático foi feito para que você, leitor@, se aproximasse um pouco da realidade do que se calcula terem sido de um a quatro bilhões de mulheres submetidas ao ritual de deformação dos pés, praticado na China. Começaremos por aqui a viagem pela construção social do pé feminino.
A escolha não foi fortuita: a China é lá longe e a Idade Média também. Suficientemente longe para que nos horrorizemos com a tortura cruel a que todas essas mulheres foram submetidas. À medida que as temáticas comuns nos aproximarem dos nossos próprios pés, creio que o afastamento inicial nos permitirá entender que sempre tivemos nossos revolucionários pés amarrados.
Pés amarrados: a estética da submissão e da imobilidade
O ritual da deformação dos pés foi praticado na China durante mil anos. Iniciado no século X, a deformação de pés femininos só foi totalmente extinta por decreto governamental do governo comunista em 1949.
A produção de um pé deformado para uma mulher adulta começava na infância. A menina, entre 2 e 5 anos de idade, era submetida a penosas sessões de deformação dos pés que necessariamente produzia fraturas e outras lesões ortopédicas, além de risco de infecção. A infecção, necrose e perda de partes do pé parecem ter sido comuns. Não é difícil imaginar que a morte por septiscemia também.
Pelas descrições da literatura, a primeira sessão devia ser a mais difícil: é quando era necessário quebrar o dedão e os ossos do arco do pé. Apesar da manipulação constante atrasar sobremaneira a cicatrização óssea, eventualmente ela ocorria e os pés da mulher tornavam-se deformados para sempre.

À esquerda: comparação entre um pé comum e o deformado. À direita: raio-x do pé de uma chinesa. Foto: Wikimedia Commons.
Como e com que motivação explícita essa prática começou é apenas conjectura: está perdido na ausência de registros de séculos de tradição. O que é consenso entre os comentadores e estudiosos é que a mulher com pés deformados era um símbolo de status para sua família e marido. Afinal, apenas famílias ricas podiam se dar ao luxo de ter uma mulher em casa que não podia trabalhar, mas que requeria atenção constante para os cuidados com seus pés deformados.
A mulher com pés deformados se locomovia com muita dificuldade e mal. Pela perda da funcionalidade dos pés, ela precisava andar com os joelhos levemente flexionados, além da postura ser instável e não ereta. Não apenas o pequeno tamanho dos pés, mas a postura e andar alterados foram culturalmente construídos como belos e sexualmente atraentes.
bottom line dessa história de mil anos de horror é que qualquer coisa pode ser construída como sexualmente atraente e bela: a cultura é o reino do arbítrio, para o bom e fascinante e, para o mal e horripilante. O fim da prática de amarrar os pés fez parte dos primeiros esforços feministas na China.
Para que servem os pés: um pouco de evolução, anatomia e cinesiologia
Todas as metáforas envolvendo pés e mãos, bem como a investida opressiva sobre estas duas partes do corpo em termos de sua funcionalidade, derivam da grande novidade evolutiva da qual nossa espécie é a pioneira: o bipedismo completo. Em função dele, temos mãos livres para um conjunto de tarefas motoras novas e de imenso impacto na realidade, como já vimos. Também em função dele, nossos pés passaram a ser a única estrutura que faz interface com o solo.
Foram milhões de anos de pressões evolutivas variadas. Vamos focar, no entanto, nas pressões seletivas e seu resultado em relação aos pés. Estas pressões foram principalmente relacionadas à eficiência do equilíbrio e da propulsão. Ainda que em outros primatas os membros inferiores tenham sempre sido os principais membros para a locomoção, esta se dava sempre com apoio parcial dos membros superiores (com os nós dos dedos, nas espécies com maior locomoção no chão) e, pés e mãos com agarre nas espécies mais arborícolas.
Parece natural que a relação entre a anatomia dos pés e nossa natureza, ou até mesmo identidade, tenha recebido a atenção da comunidade científica. Houve um boom de estudos sobre evolução dos pés (e mãos) nos anos 1920s e 1930s, interrompido por um período em que a ausência de evidência paleontológica provocou um certo marasmo. Com as novas descobertas dos fósseis de hominídeos nos anos 1960s, a pesquisa e discussão foram retomados em outro patamar.
As origens e evolução do bipedismo são um tema ainda agitado pela controvérsia e falta de consenso. O que alguns estudiosos acreditam é que rotas evolutivas distintas responderam às poderosas pressões seletivas que resultaram na anatomia e cinesiologia do pé humano moderno. O pé humano e o tornozelo compõem a estrutura mecânica que resultou de tais pressões seletivas. Ela contém exatamente 26 ossos, 33 articulações e mais de 100 músculos, tendões e ligamentos.
Observe abaixo três animações que mostram como este sistema mecânico funciona para produzir a marcha e a corrida humana (duas ações de importância fundamental desde a infância), com o equilíbrio e propulsão necessários:

Por que me preocupei tanto com a evolução, a complexidade da estrutura anatômica e a cinesiologia do pé neste ensaio? Para que você, leitor@, sinta fortemente a importância da primeira afirmação deste ítem: a pressão seletiva que resultou no pé humano moderno foi pela maior eficiência possível do equilíbrio e da propulsão.
Agora, o entendimento do efeito do ritual dos pés amarrados e de qualquer interferência na estrutura e função do pé ganha clareza política: elas interferem diretamente na expressão de nossa humanidade ao subtrair às vítimas seu equilíbrio e capacidade de propulsão. Elas são opressivas, sexistas e desumanizantes. Será que outras vertentes da cultura da forma não teriam efeito semelhante?
O salto alto
Se você pensou “salto alto”, pensou certo. Inúmeras comentadoras compararam o salto alto moderno com o ritual do pé amarrado chinês (aqui e aqui). Tanto um quanto o outro fazem com que o pé pareça menor, característica construída como sexualmente atraente nos dois contextos culturais. Tanto um quanto o outro deformam o pé (embora o salto alto não tão dramaticamente), pelo menos enquanto usado o calçado. Tanto um quanto o outro alteram a postura e a marcha, nos dois casos para uma postura e marchas construídas culturalmente como sexualmente atraentes.
Observem os dois vídeos abaixo com animações explicativas sobre o efeito do uso de sapatos de salto alto sobre a marcha e os potenciais riscos lesivos:

Saltos moderados começaram a ser usados nas cortes européias no século XVI. Os saltos muito mais altos, no entanto, apareceram somente no século XX. Os saltos exageradamente altos são frequentemente associados à indústria pornográfica. Mais uma vez, da mesma maneira como com outras opções estéticas, a despeito de todos os riscos e problemas ortopédicos, o problema político não está na existência e uso do objeto, mas na sua imposição – direta ou indireta – às mulheres.
Assim como espera-se de uma prostituta que use saltos altos, também espera-se de secretárias, recepcionistas e outras trabalhadoras do ambiente executivo em escritórios. O mesmo se dá com garçonetes. Em junho de 2013, o sindicato de garçonetes dos Estados Unidos colocou a exigência dos saltos altos em pauta na negociação com contratantes. O sindicato alega que, além de lesivo, o uso de saltos altos pode ser uma forma de livrar-se das garçonetes mais velhas, já lesionadas demais para suportar o uso dos mesmos.
Foto de abrinsky no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Foto de abrinsky no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
A psicologia evolutiva nunca decepciona no besteirol
O que mais, se não um impulso incontrolável geneticamente codificado nos faria, como espécie, valorizar pés femininos pequenos? Campo para nossa conhecida usina de bobagem conservadora, a psicologia evolutiva, produz suas “evidências” com fundamento metodológico passando quilômetros de um olhar antropológico crítico. Nessa linha, Voracek e colaboradores “demonstraram”, através de “diferentes métodos”, que pés pequenos em mulheres são uma medida de atratividade em nossa espécie.
Não importa que as amostras tenham sido 75 homens e mulheres do Canadá e Áustria hoje: isso é irrelevante para estes pesquisadores. O fato de serem ambos países com economias de mercado bem desenvolvidas, urbanos e majoritariamente caucasianos, com herança cultural européia é igualmente irrelevante para eles.
Como os autores sérios em biologia evolutiva ou estudos sociais da ciência afirmam, não há discussão científica possível com a psicologia evolutiva: o diálogo está fora do âmbito da ciência por não considerar consensos intelectuais há muito estabelecidos, bem como parâmetros mínimos de rigor metodológico na pesquisa social. Não há o que discutir em relação a pseudo-estudos tautológicos que demonstram seu pressuposto e não uma tese verificável.
É evidente que a atratividade sexual de pés pequenos femininos é tão essencial ou biológica quanto a proporção quadril-cintura, tamanho de nariz, comprimento de cabelo, cor de pele ou a bobagem que se quiser demonstrar associada à ideologia dominante, ou seja: nada.
Ornamento: as várias formas de construir a beleza
Assim como mãos, barriga, rosto, cabelos e outras partes do corpo, os pés das mulheres (e dos homens também, embora bem menos) têm sido ornamentados em quase todas as culturas desde tempos imemoriais. Mesmo sociedades que floresceram e resistem em locais frios têm seus calçados, que naturalmente são objetos de construção estética como ornamento, além do uso prático como proteção aos pés.

À esquerda: ornamento de prata indiano. À direita: ornamento artesanal neo-pagão moderno.
Jóias e arte corporal, como tatuagens, podem representar marcas de distinção e status social em sociedades tradicionais. Algumas formas tradicionais ainda persistem. Hoje, no entanto, a ornamentação dos pés foi apropriada de diversas maneiras por mulheres de todo o mundo. Fazem parte de um repertório universal com o qual se constroem identidades e as próprias representações do belo, com múltiplos diálogos através do tempo e das culturas.

Em sentido horário: 1) Desenho de ornamentos para pés e dedos dos pés no início do século XX (Índia); 2) Tatuagem e ornamento matrimonial indiano; 3) Ornamento para pés do Yemen.
Vivendo a contradição
A época do policiamento por coerência, graças a todas as divindades inexistentes ou, se você quiser, existentes, está se acabando. Acredito que nossa função ao exibir as entranhas da construção social de coisas tão prosaicas como sapatos ou talheres é mostrar que a própria ideia de coerência é ingênua, boba e insustentável. Coerência com que?
O que se pode buscar é o caminho da maior libertação pessoal e social possível. Acabar com práticas que envolviam tortura e abuso de crianças, como os pés amarrados chineses é uma questão pacífica: nem merece discussão. Mas o que dizer sobre os saltos altos? É inegável o paralelo com os pés amarrados. Ainda assim, muitas mulheres com alto grau de consciência sobre as questões de opressão de gênero usam, e bastante, os saltos altos.

Marília Coutinho. Serafina, Folha de São Paulo, fevereiro de 2013. Imagem de Bob Wolfenson.
Como ficamos?
Ficamos com o poder de tomar decisões mais bem informadas. Sabendo de onde vêm as representações, cada uma de nós está mais empoderada para perambular pelo repertório estético de alta carga ideológica de gênero e fazer as melhores escolhas para si. E. para me incluir nesse imbróglio (in)coerente, aí ao lado uma das mais belas fotos já tiradas de mim, por Bob Wolfenson.
Eu sou uma atleta de alto rendimento, dependo dos meus pés e tornozelos íntegros para minha arte e minha profissão. Uso botas e tênis no dia-a-dia e para minha prática. Não sei andar com salto alto. Para chegar até o local onde foram feitas as fotos (um percurso ridículo de 15 metros), fui ajudada.
O que eu acho? Lindo de morrer! Mas, como dizem, “só para bater um retrato”.
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Autora
Marília Coutinho é atleta profissional de levantamento de peso, bióloga, bioquímica, doutora em sociologia da ciência e atua em ciências do esporte. Seu site: http://www.mariliacoutinho.com/
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