sábado, 7 de setembro de 2013

As indústrias tentam se livrar do sal, açúcar e gordura

O artigo abaixo foi publicado pela Revista Exame e fala sobre as tentativas das indústrias de alimentos de adequar seus produtos às demandas de saúde – por exemplo abaixando os níveis de sódio, edulcorantes naturais e artificiais e quantidades de gordura – substituindo-os por QUÍMICOS DESENVOLVIDOS EM LABORATÓRIO, de forma a não alterar o sabor.
Minha opinião a respeito é de que estas empresas são justamente as únicas que têm poder suficiente para mudar os hábitos alimentares da população para melhor – o Ministério de Saúde, os cozinheiros e advogados da boa alimentação desaparecem quando comparados com os bilhões faturados por indústrias como estas. Se somos viciados em sal e açúcar, grande parte da responsabilidade é delas. Infelizmente a consciência de que produtos industrializados fazem mal é muito recente, e crescemos consumindo os produtos dessas empresas. São hábitos difíceis de largar. Rejeitar os produtos industrializados em prol de uma dieta mais caseira, natural e artesanal é difícil e demanda tempo e dinheiro.
Estas grandes empresas enchem a nós e a nossas crianças de químicos conservantes, corantes, gorduras hidrogenadas, cereais geneticamente modificados, cheios de pesticidas e agrotóxicos e dezenas de outros componentes que se destinam somente a baratear os custos de produção e aumentar o shelf life (tempo de prateleira, a validade) dos produtos – aumentando também seus lucros, e MUITO.
Um bolinho empacotado que dura seis meses é um disparate, algo que vai contra o bom senso, gente. E acreditem, uma empresa deste tamanho visa APENAS os lucros – nenhuma delas está interessada na sua saúde. Nenhuma delas quer saber se seu filho tem colesterol alto ou se você consome 300% da quantidade aconselhada de açúcar no mês. Eles querem saber quantos pacotes de biscoitos recheados e salgadinhos cheios de químicos você compra, e quantas vezes ao ano. E se eles lançam salgadinhos com 30% a menos de gordura é porque a coisa estava ficando feia pro lado deles, por questão de imagem mesmo, e não porque estão preocupados com o futuro.
Vamos tentar reduzir nosso consumo de produtos industrializados ao mínimo? Para o bem de todos!
——–
As empresas de alimentos buscam substitutos para sal, açúcar e gordura, ingredientes responsáveis pelo sucesso da comida industrializada — mas a empreitada está mais difícil que o planejado. E, para alguns fabricantes, não tem valido a pena
João Werner Grando
São Paulo - Três ingredientes foram fundamentais para o crescimento das empresas globais de alimentos: sal, açúcar e gordura. Gigantes como Nestlé, Pepsico, Kraft e Unilever não acharam nada melhor para fazer seus produtos ao mesmo tempo irresistíveis e baratos.
Do pão de forma ao macarrão instantâneo, nada estende mais a validade e ressalta o sabor do que o sal. As gorduras deixaram os salgadinhos mais crocantes, e o açúcar fez de chocolates e refrigerantes praticamente um vício para as crianças.
Foi carregando a mão nesses ingredientes que a indústria conseguiu transformar a comida num produto industrializado — responsável por vendas de 2,2 trilhões de dólares no ano passado, o dobro de uma década atrás. Sal, açúcar e gordura são, portanto, os pilares sobre os quais a indústria mundial de alimentos se construiu. Mas as grandes empresas do setor já perceberam — está na hora de mudar.
Como a combinação do consumo exagerado dessas comidas com hábitos mais sedentários está tornando as pessoas mais gordas e, logo, mais doentes, encontrar alternativas para sal, açúcar e gordura se tornou obrigatório. Nesse momento, cientistas da Nestlé estudam formas de cumprir uma meta para diminiuir em 30% a quantidade de açúcar em seus cereais matinais.
A saí­da pode ser um suco de maçã em desenvolvimento que promete aumentar a doçura com menos efeito sobre o nível de glicose no sangue. A americana Kraft pesquisa em seus seis centros de inovação no mundo uma maneira de reduzir sua dependência do sódio, com uma fórmula ou uma fonte diferente de sal. As americanas Cargill e Pepsico e a brasileira BRF se dedicam a iniciativas semelhantes.
Mexer com esses ingredientes é mexer com os fundamentos do modelo de negócios dessas empresas. Sal, açúcar e gordura fizeram produtos melhores, consumidores satisfeitos e acionistas felizes. Em um paralelo, é como vem acontecendo com a indústria automobilística.
O motor a combustão movido a gasolina criou uma enorme cadeia de fornecedores que começa nas empresas de petróleo, vai aos milhares de postos de combustível e chega às oficinas de manutenção.
Mudar de uma hora para a outra é impossível: seus possíveis substitutos, o motor elétrico e o etanol, ainda estão longe de virar soluções definitivas. No caso dos alimentos, tem sido parecido.
As inovações obtidas nos laboratórios das maiores empresas do mundo são, no máximo, parciais. A Pepsico, fabricante dos salgadinhos Elma Chips, criou um ingrediente que acredita ser a maneira com que vai diminuir a quantidade de gordura de seus produtos.
Os laboratórios da companhia no Brasil e na Argentina criaram um novo tipo de óleo de girassol, recomendado por ser livre de gorduras saturadas, principal causa do entupimento de veias e artérias.
O óleo usa uma semente criada pelo cruzamento de espécies, que dá ao produto final as mesmas características de conservação e textura do óleo tradicional com gorduras saturadas — no caso dos salgadinhos, o óleo de palma.
O problema é que, depen­dendo­ do produto, ainda é necessário manter pelo menos 30% de gorduras saturadas na fabricação. “Essas mudanças têm de ser feitas de forma gradual”, afirma Sérgio Júlio, diretor de pesquisa e desenvolvimento da Pepsico no Brasil. “O consumidor não admite mudança no sabor nem no preço.”
Regulação e lobby
Entre os diversos desafios, nada supera o de tirar o sódio da comida. Sua quase onipresença em tudo que é processado, do chocolate à lasanha congelada, fez das doenças ligadas à substância, como pressão alta, a maior causa de morte por doenças não contagiosas — cerca de 8 milhões de pessoas por ano.
Diversas empresas têm feito reduções de 20% e 30%, trocando parte do sal por ingredientes que compensam a perda de sabor.
A maior dificuldade é obter um substituto que faça as vezes de conservante de forma tão eficiente e barata quanto o sódio. A multinacional Cargill trabalha para criar um sal com uma molécula alterada, que faça com que uma quantidade menor de sal tenha o mesmo efeito sobre o sabor e a conservação.
É também sobre essa questão que a produtora brasileira de alimentos BRF está dedicando suas pesquisas mais avançadas.
Até julho, a empresa pretende lançar produtos com uma nova formulação para substituir o sal. Trata-se de uma inovação desenvolvida nos últimos dez anos nos laboratórios da BRF. Os cientistas usaram aminoácidos de proteína animal para fazer o que o sal faz — dar sabor e conservar — sem o prejuízo causado pelo sódio na saúde.
Os primeiros lançamentos serão salsichas e presunto com a nova fórmula, mas o objetivo é estendê-la a todas as linhas de produtos. “Não há nada parecido no mundo”, diz Joaquim Goulart, diretor de tecnologia e pesquisa e desenvolvimento da companhia.
Ainda que as tendências de consumo ajudem a direcionar os investimentos, um grande empurrão — nem sempre muito agradável para as empresas — está vindo na forma de regulação governamental e pressão da sociedade.
No Brasil, o Ministério da Saúde fechou, no ano passado, um acordo com as empresas para a redução da quantidade de sódio nos alimentos processados. A meta é cortar pela metade o consumo de sal até 2020.
Lá fora, Michelle Obama, primeira-dama dos Estados Unidos, o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, e o chef inglês Jamie Oliver foram algumas das personalidades que se engajaram em campanhas de combate à obesidade.
Em 2009, o Congresso americano iniciou discussões sobre um imposto para os refrigerantes — 1 centavo de dólar seria cobrado por 30 mililitros da bebida, e posteriormente usado em campanhas de combate à obesidade.
A reação da indústria foi pesada. Para derrubar a ideia, multiplicou seus gastos com lobby e fez propaganda afirmando que o aumento de impostos custaria caro aos consumidores americanos. O projeto está em discussão em 20 estados.
Isso mostra que, apesar das iniciativas para buscar alimentos mais saudáveis, ninguém está disposto a sacrificar o retorno aos acionistas. É a tese defendida pelo jornalista americano Michael Moss, do jornal The New York Times, em seu recém-lançado livro Salt Sugar Fat: How the Food Giants Hooked Us, algo como “Sal açúcar gordura: como os gigantes da comida nos pegaram”, ainda não lançado no Brasil.
“Quando a Pepsico lançou, em 2010, uma campanha para promover produtos no estilo saudável, a primeira queda nas vendas fez Wall Street clamar pela volta dos principais produtos da companhia: aqueles com mais sal, açúcar e gordura”, escreve Moss.
A empresa logo voltou atrás e reforçou o mar­keting dos velhos produtos de sempre. Destoando da onda do politicamente correto, há quem não veja problema algum em manter a fórmula gordurosa inalterada. A fabricante americana de sopas enlatadas Campbell’s está de fora da atual tendência — e seus cientistas não passam um minuto sequer procurando substitutos para seus ingredientes atuais.
Segundo os executivos da Campbell’s, tirar sal, gordura e açúcar de suas receitas significaria sacrificar o sabor dos produtos — ou seja, aquilo que faz as pessoas comprá-los. Não se trata de uma visão filosófica.
Anos atrás, a empresa lançou alguns produtos com menos sal. Mas o público simplesmente detestou. O que torna ainda mais complicado o desafio posto à indústria de alimentos no mundo inteiro. Quem vai decidir o futuro dos alimentos ricos em açúcar, sal e gordura? Bilhões de apaixonados por açúcar, sal e gordura.

Nenhum comentário:

Postar um comentário