sábado, 7 de setembro de 2013

Deixando o cabelo branco



Na Casa TPM, onde estive em agosto (e foi muito bacana), um dos cômodos oferecia gratuitamente maquiagem e alguns penteados para as visitas. Como eu ia palestrar pouco tempo depois e estava num bad hair day, aceitei a oferta de me arrumar um pouquinho.
Mas, né? Não digo que feministas não devem gastar tempo e dinheiro em salões (minha luta é contra a imposição de um sistema, muito mais que as escolhas individuais de cada uma), só que esta nunca foi a minha praia. Sempre me senti muito peixe fora d'água num ambiente desses. E o cabeleireiro da Casa TPM logo notou meu desconforto. 
Tentando ser simpático, ele perguntou se eu estava deixando meu cabelo ficar branco. Respondi que não, era só que, com meus 46 anos, minha ida habitual ao cabeleireiro da esquina para tingir meus cachos (duas vezes por ano) já não estava mais dando conta do recado. Os fios brancos aparecem logo. 
O rapaz emendou que tudo bem se eu quisesse deixar todo o cabelo branco, eu só precisaria adotar um corte mais "moderno". Acho que respondi que ainda não estava pronta pra ter a cabeleira toda branca. O chato é que até pra deixar o cabelo naturalmente branco exige cuidados especiais!
Mas por que não, né? Todas as vezes que estive em ambientes universitários americanos, cansei de ver professoras com os cabelos todos grisalhos. Lá é comum. Aqui, onde somos obcecadxs pela juventude, não. Se bem que não ter cabelo grisalho está longe de ser a única imposição pra cabelo. Tem que ser liso, tem que ser longo...
Nesta reportagembastante interessante, um psicanalista explica a agressividade vinda de algumas mulheres contra aquelas que permitem os cabelos grisalhos: "Quem expõe os cabelos brancos está denunciando, indiretamente, quem os pinta. E as denunciadas se sentem desmascaradas diante do espelho". 
Uma aluna me pediu pra publicar o depoimento da mãe dela. Segundo essa aluna, sua mãe "tem 52 anos e resolveu assumir os cabelos grisalhos dela há seis meses, e tem sofrido muito preconceito e pressão social, como se ela fosse 'desleixada', ou mesmo louca. Eu, minha irmã e meu pai apoiamos bastante a decisão dela, mas é difícil competir com uma mídia/sociedade opressora para com as mulheres como a que vivemos". 

Ano passado, depois de viajar para a Europa e ver várias mulheres de 40 anos em média assumindo seus cabelos grisalhos, tomei a decisão e busquei coragem para deixar as tinturas e assumir meus cabelos brancos e grisalhos. Desde os 28 anos que tenho cabelos brancos e meu cabelo, apesar de todos os cuidados e hidratações, estava danificado. Não parecia mais o meu cabelo...
Não imaginava que iria sofrer tanta pressão e preconceito! No Brasil, diferente da Europa, as pessoas se incomodam muito com a vida dos outros, além de acharem que cabelo grisalho em homem é charmoso, e em mulher é no mínimo desleixo. Infelizmente tem gente que me olha de um jeito, como se estivesse me condenando. Já teve gente que veio me perguntar se eu não estava vendo que estava com cabelos brancos, se eu não iria mais pintar o cabelo...
Estava em meu escritório e uma colega de trabalho, diga-se de passagem, quase da mesma idade que a minha, entrou para perguntar se realmente eu não ia mais pintar o cabelo, porque estava com muitos cabelos brancos. Tive que lembrá-la que se ela deixasse de pintar o dela, com certeza também ficaria grisalho. Penso que minha atitude faz as pessoas pensarem que elas também estão envelhecendo, e elas não querem lembrar-se disso.
Outra vez foi uma pessoa da família que veio me dizer: "Valha! Teu cabelo tá ficando todo branco!” Ao que eu respondi: se você deixar de pintar o seu, com certeza também ficará cheio de cabelos brancos como o meu, já que você só é um ano mais nova que eu!
Semana passada outra colega de trabalho veio me falar dos meus cabelos brancos. Respondi que tenho duas opções, pintar e terminar careca, ou ficar com cabelos brancos, mas com cabelo. Ela me pareceu chocada, e um tanto decepcionada. E olha que era uma pessoa bem jovem e de mente aberta, pensei. Enganei-me!
Doutra feita, uma pessoa desconhecida olhava acintosamente, não se preocupando em disfarçar sua indiscrição, chegando a me acompanhar, como se custasse a acreditar que uma pessoa mais nova que ela assumisse seus cabelos brancos. Contando para uma amiga, ela me disse que talvez ela estivesse surpresa, já que, apesar dos cabelos brancos, quase não tenho rugas.
Em contrapartida, recebo elogios de um colega de trabalho (pensei que os homens seriam mais preconceituosos), de minha filha, de minha secretária (não sei se para me agradar), e de um irmão, que sempre que me vê diz que meu cabelo está ficando um charme. O fato é que meu cabelo, depois de seis meses sem tintura, está aos poucos voltando a ser sedoso, hidratado, macio e grisalho.
Devo dizer que estou sendo cobaia de algumas pessoas, que por não terem coragem, dizem que se eu conseguir, elas também assumirão seus cabelos grisalhos ou brancos.
Vivo este processo há seis meses, desde que encontrei uma cabeleireira que apoia o não uso de tintura pela quantidade de metais pesados (inclusive chumbo) em sua composição. Tenho recebido o apoio de meu marido e minhas filhas, o que torna tudo mais fácil. 
Durante esse tempo, cheguei à conclusão que o brasileiro, aliás, vou além, o ser humano, não aceita envelhecer. A velhice acontece desde a hora que se nasce! Portanto, por que não aceitar que tudo tem seu encanto, sua beleza? Pretendo continuar. Independente dos olhares críticos, às vezes indiscretos, outras vezes furtivos, decido continuar!

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