sexta-feira, 27 de setembro de 2013

"O preconceito é o maior erro da humanidade"



Nelson Baskerville,  Autor do sucesso "Luís Antônio Gabriela", ator e diretor conta como foi revisitar o doloroso passado do irmão travesti e a redenção de dar voz à injustiça. "Não tem um lado certo e um lado errado. As coisas acontecem."

De repente só se falava nisso. "Você já viu 'Luis Antonio Gabriela'?" Sempre num circuito meio alternativo, em temporada não linear, a peça de Nelson Baskerville lotou os teatros - pequenos e grandes - por onde passou. Para quem não viu ficou o livro de mesmo nome lançado pela editora nVersos em setembro de 2012, uma edição caprichada - indicada ao prêmio Jabuti - que de certa forma reproduz o espanto e o desconcerto que o espetáculo provocava nas 300 apresentações que fez nos dois anos e meio em que esteve em cartaz.
“'Luís Antônio' foi um fenômeno da classe artística, dos atores de São Paulo. A partir daÍ a imprensa olhou para a peça, e por fim o público. Não houve quem entrasse na sala e se arrependesse, independente da faixa etária ou orientação sexual”. Assim Nelson Baskerville , 52, explica o fenômeno ' Luís Antônio Gabriela', espetáculo biográfico que ele escreveu e dirigiu, contando uma história muito familiar: a sua. A peça fala da vida do próprio Baskerville, ou melhor, de sua família toda e especificamente de seu irmão Luís Antônio, que viria a se tornar Gabriela. 
Montado pela Cia Mungunza,  foi a segunda parceria do grupo com Baskerville. A primeira, de 2006, começou de forma inusitada. "O pessoal da companhia entrou em contato comigo pelo Orkut, eu gostei do que eles estavam pensando em fazer e topei”, relembra. Foi assim que saiu do forno "Por que a criança cozinha na polenta". 
Em "Luís Antônio Gabriela" o processo foi mais complexo, afinal a história tocava mais fundo os sentimentos do diretor. Nascido em Santos (77 km de São Paulo), Baskerville, o caçula de nove irmãos - seis de seu pai e três de sua madrasta -, enfrentou momentos bem complexos na infância. Para começar, sua mãe morreu no seu parto, deixando o pai com um recém-nascido no último degrau de uma escadinha de seis filhos, cinco biológicos e Luis Antônio, com quem o pai aparecera certo dia anunciando que faria também parte da família. Viúvo, o pai se casou com uma mulher que tinha duas filhas e um filho.
O pai era violento e Luís Antonio, 8 anos mais velho que Nelson, e abusou sexualmente dele até o dia em que, aos 16, foi expulso de casa. Nelson viu tudo acontecer por seus olhos de criança, e foi só quando se debruçou sobre a peça que entendeu algumas questões de sua infância e de sua família. 
"Não tem um lado errado e um lado certo, as coisas acontecem"
“Meu irmão não era doente, meu pai não era um bandido, eles eram humanos, e eu queria passar isso na peça. Tudo foi maior que a questão pessoal", explica. "Quando fui montar a peça não pensei na exposição individual, mas na questão da diversidade sexual, onde se fala muita besteira. Alguém precisa combatê-las. A própria revelação do abuso sexual mostra que não tem um lado errado, ou um lado certo, são coisas que acontecem”, diz Baskerville.
 "Meu irmão não era doente, meu pai não era um bandido, eles eram humanos, e eu queria passar isso na peça"
"Mostrá-lo (o abuso que sofreu) tem uma função, a do público entender mais ou menos um processo, e o que também esse mundo adulto faz com a cabeça de uma criança. É importante mostrar todos os lados. É um mundo cruel que abusa da criança, da inocência alheia. Ninguém sai odiando o Luís Antônio, porque entende essa dicotomia”.
“Botar tudo pra fora foi de uma generosidade maravilhosa, todos nós tínhamos engasgado tudo que nos aconteceu e nenhum tinha voz para falar sobre aquilo. A peça foi um grito pela justiça, para sanar uma grande injustiça, e isso passou por todos os membros da nossa família, foi um dever que a gente tinha com o nosso irmão”, desabafa Baskerville.

Divulgação
Capa do livro Luís Antônio Gabriela
Reencontrando Gabriela
Para retratar os 53 anos de vida do irmão - que a certa altura foi viver na Espanha e passou 20 anos sem se comunicar com a família -, uniram-se às lembranças do próprio ator depoimentos de uma transgênero amiga de Luís Antônio, quando já era Gabriela, da madrastra de Nelson e de sua irmã Maria. É ela inclusive o fio condutor do espetáculo, já que foi Maria quem viajou para a Espanha para ajudar Gabriela no fim da vida, quando já se encontrava fragilizada pela Aids.
Juntando os caquinhos da história, Nelson resgatou a linearidade dos fatos. Luís Antônio se percebeu transgênero na infância, e relatos dão conta de que sua iniciação sexual foi também precoce. Além do irmão mais novo, Luís praticava sexo com vizinhos e colegas de escola. Seu jeito efeminado foi motivo para o pai agredi-lo com frequência, tentativa equivocada de corrigir o filho. Expulso de casa, Luís foi para as ruas se prostituir, e por meio de práticas condenáveis, como injeções de silicone industrial, foi modificando o corpo e mudou seu nome para Gabriela.
Já adulta se mudou para a Europa, onde viveu uma fase de glória - fez sucesso na noite fazendo shows de travesti. Foi apenas ao ouvir rumores de sua morte que Maria descobriu que Gabriela estava viva, mas com dificuldades, e foi então ao seu encontro. Gabriela faleceu em 2006.
"Nos escondemos tanto que as histórias passam a não provocar reação"
Baskerville conta que, mesmo não sendo ativista da causa, mexer com a questão do irmão resvalou no sentido artístico e que o sucesso da empreitada fez com que ela adquirisse um papel social. “Nunca fomos dois sexos, dois gêneros, fomos muito mais", conta ele, reproduzindo um trecho do programa da peça "Lou & Leo", que ele dirigiu e que conta a história do transexual Leo Moreira Sá. "O preconceito é um erro da humanidade e devagar estamos indo na direção do esclarecimento.”
fonte: Ig

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