terça-feira, 17 de setembro de 2013

Uma observação sobre moda plus size

Seja em passarelas ou nas revistas, quando o assunto é moda, mulheres gordas tornam-se completamente invisíveis. Existe um padrão de magreza e branqueza que impera. No entanto, talvez pensando na enorme quantidade de consumidoras que estava perdendo, a indústria da moda tem investido um pouco mais de atenção na chamada linha “plus size”. Essa não é uma atitude generalizada dentro da indústria da moda e a maioria predominante das marcas mais consagradas continua a seguir a mesma linha de produção e publicidade voltada para mulheres magras. Ainda assim, houve o surgimento de novas marcas voltadas para compradoras menos magras, um mercado pouco explorado.
O suposto objetivo das linhas plus size seria de oferecer uma moda mais inclusiva e vislumbrar todos os corpos femininos. Apesar de ser a idéia que tentam passar por todos os canais de comunicação, a metodologia da moda plus size parece não estar sendo efetiva, por mais que queiramos enxergar de modo positivo. Os catálogos e propagandas dessas linhas têm alienado ainda mais as mulheres obesas – que já são excluídas amplamente de privilégios sociais – com comerciais e campanhas que retratam plus size, ou seja, tamanhos “acima da média”, com mulheres que são, no máximo, apenas menos magras do que o padrão irreal frequentemente exibido. Essa má representação não só derruba a autoestima de mulheres magras, taxando-as de gordas, como também oficializa a indesejabilidade de mulheres obesas.
Observando campanhas publicitárias e catálogos plus size, é possível fazer um breve resumo das mensagens transmitidas e dos critérios disseminados: mulheres majoritariamente brancas, muitas vezes loiras, com corpos tidos como “proporcionais” e curvilíneos que não extrapolam o limite estético tolerável socialmente. É constante nesse tipo de propaganda que sejam exibidos corpos com ausência de estrias e celulites que só pode ser alcançada por meio de programas de edição de imagem e as mulheres sejam representadas de forma sedutora. Mulheres gordas – se é que dá para chamá-las assim – são igualmente objetificadas nas campanhas plus size, mesmo que a representação de seus corpos seja como a de algo repulsivo nesses mesmos tipos de propaganda.
O problema parte do nosso entendimento do que é um tamanho grande ou, mais especificamente, quando uma mulher começa a ser gorda. É absurdo que a maior parte das modelos contratadas não é, de fato, de gordas ou obesas, mas de mulheres que, apesar de não serem obesas, não se enquadram no falso e perigoso padrão de magreza excessiva (veja quais são as mulheres que consideramos gordas) frequentemente disseminado. É justamente para essas consumidoras que são feitas as roupas das linhas plus size, mercado não contemplado pela moda hegemônica. No entanto, o público consumidor total não se resume a isso e há mulheres com uma grande variedade de corpos que, quando não encontram roupas que lhes caibam ou ofereçam conforto, precisam recorrer às lojas de supostos tamanhos maiores. Só que os tamanhos das roupas plus size são pequenos, feitos apenas para “gordas magras”, as famosas “cheinhas”. Se roupas com moldes tão pequenos já são considerados “plus size“, consumidoras mais gordas encontram ainda mais dificuldade para conseguir peças de vestuário que atendam suas necessidades e desejos. Ao contrário da moda masculina, que disponibiliza tamanhos para homens “gordinhos” em qualquer loja e torna acessível os tamanhos realmente grandes nas linhas plus size, para uma mulher obesa, ir a esse tipo de loja não é garantia de nada: sair com as mãos vazias pode ser frustrante e costuma ser uma experiência recorrente.
Para mulheres, que vivem sob constante pressão social a respeito de sua aparência física e número do manequim, entrar em um loja exclusiva para gordas já costuma ser uma questão delicada; ter que sair da seção de roupas “normais” para a plus size acaba por se tornar uma situação de estresse e humilhação. Os olhares críticos se fazem presentes, muitas vezes na forma de ironia das próprias pessoas que estão vendendo a mercadoria, assim como a brusca queda de autoestima. O que dizer então de uma mulher que passa por todo esse processo para finalmente descobrir que não há uma só roupa, nem mesmo na seção para gordas, que a serve ou agrade? Até mesmo aquelas que estão dispostas a pagar muito mais caro por roupas maiores – uma vez que a indústria é abusiva em seus preços – saem de mãos abanando e, não raramente, com um grande abalo emocional. Se nem mesmo nesses espaços os seus corpos são incluídos, onde serão?
As modelos exibidas em catálogos e propagandas plus size recebem, por via de regra, o famoso tratamento “Photoshop“; suas formas são redefinidas e reduzidas; marcas e manchas, celulites e estrias são retiradas. É assim que é criado um padrão que já é inalcançável para qualquer mulher – o que dizer então das mulheres “plus size“, que, em sua grande maioria, possuem quantias consideráveis de estrias e celulites. Essa produção em série de mulheres “pseudogordas”, sempre brancas e plastificadas, é responsável por causar ainda mais mal estar ao seu já oprimido público consumidor. Se todas as gordas que são aceitas como belas são aquelas dotadas de peles perfeitamente lisas e firmeza no corpo, não há como não se sentir extremamente inadequada.
Não deveria ser tão difícil oferecer roupas bonitas e de qualidade a todas as mulheres, que deveriam ter o privilégio de escolher as roupas que julgarem adequadas para seus corpos, de acordo com seu gosto pessoal. Da mesma forma, mulheres gordas deveriam ser mais amplamente representadas em campanhas publicitárias e catálogos das mais diversas marcas; nada mais justo, visto que são todas consumidoras em potencial, além de corresponderem a uma grande parte das mulheres do Brasil e do mundo.
A divisão da moda entre as linhas “normal” e “plus size” é essecialmente reprovável, pois promove a segregação e patologização dos corpos que diferem de um padrão artificial de beleza. Além disso, é absurdo que uma indústria que é supostamente voltada para mulheres gordas reforce ainda mais a magreza como padrão, visto que promovem as “cheinhas”, ou “gordelícias”, como gordas bonitas, com corpos “naturais” que, apesar de não tão magros, até podem ser celebrados, ao contrário das obesas, essas realmente gordas, feias, indesejáveis e que não devem ser representadas positivamente.
Essa situação requer medidas drásticas e só tende a piorar enquanto não reavaliarmos nossos valores e confrontarmos esse padrão de beleza discriminatório e excludente.

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