terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Corpo em Evidência

A TRAJETÓRIA DA FOTÓGRAFA E ARTISTA PLÁSTICA LONDRINENSE FERNANDA MAGALHÃES É MARCADA POR UMA PALAVRA: GORDURA. ELA ENFRENTOU O PRECONCEITO E A TIRANIA DO CORPO PERFEITO PARA CRIAR UM TRABALHO PREMIADO QUE CORRE O MUNDO



O trabalho da artista, fotógrafa, professora da Universidade Estadual de Londrina e doutora em Artes pela Unicamp, Fernanda Magalhães, é guiado pelos temas do corpo. Fotografias de mulheres nuas, colagens e erotismo. Até aí, nada demais, pois muitos fotógrafos fazem esse tipo de abordagem. O que diferencia a obra da artista é a proposta. Como uma antítese aos padrões de beleza existentes, ela expõe em seus nus o corpo da mulher obesa e, na maioria das vezes, fotografando a si mesma.



“Hoje é muito claro que minha obra discuta a questão do corpo. Eu lanço essas reflexões todas, mas, no começo, fazia muito intuitivamente”, conta. “Olhando meus trabalhos mais antigos, notei que sempre fotografava gente. Tinha feito alguns nus, inclusive. Comecei usando umas lentes que faziam distorção, sempre com o foco no corpo. Já percebia que era disso que gostava, mas não tinha a consciência da temática. Quando fui morar no Rio, em 1993, descobri como nós, que moramos no Sul do país, vivemos cobertos de roupas se compararmos com quem vive numa cidade como o Rio de Janeiro. Lá tem essa coisa do corpo muito forte. Pessoas vão caminhar na praia, fazer exercício e existe uma democracia, porque quem está fora do padrão também vai às praias de biquíni, maiô, nos ônibus, usando roupas mínimas”.



A primeira série da fotógrafa aconteceu em 1993 e, de maneira instintiva, já discutia a questão da ditadura da beleza. Auto Retratos Nus no Rio de Janeiro expõe o corpo da artista de maneira direta por meio de montagens. “Naquele primeiro momento tinha a coisa do incômodo com aquele corpo que não me agradava, porque é um corpo gordo. Então, fiz, digamos, uma plástica. Recortei as fotos e comecei a fazer essas colagens com materiais que recolhia na rua, como pedaços de passagens de ônibus e papéis de bala. Isso foi se transformando em composições. Fiz uma veladura nos trabalhos, que ficaram cobertos por um craquelet feito com papel e cola. Ainda era uma forma de esconder o corpo que eu não aceitava. Esse trabalho foi determinante para o resto, pois era, de certa forma, um questionamento, uma dificuldade do corpo que não se enquadra, esse preconceito todo que existe”.
Fernanda não busca eufemismos nem procura palavras ditas politicamente corretas para se referir aos temas que propõe. Não por acaso, seu trabalho de maior visibilidade se chama Representação da Mulher Gorda Nua na Fotografia, que recebeu, em 1995, o VII Prêmio Marc Ferrez de Fotografia, do Ministério da Cultura. “Percebi que, além de discutir o preconceito, eu também estava tentando entender esse corpo que era o meu, e o trabalho se expandiu para o corpo do outro. Percebi que a questão não era só minha, mas uma questão da mulher gorda e, num segundo momento, uma questão da mulher. Por que nunca estamos satisfeitas? Por que sempre estamos buscando um padrão? Desse questionamento surgiu o projeto”.



A série está rodando o mundo com uma exposição itinerante e já esteve no México, nos Estados Unidos, na Bélgica, Finlândia e em várias cidades da Espanha. “O curador espanhol Alejandro Costelloti criou o Mapas Abiertos – Fotografia Latino Americana 1991-2002, no qual entraram fotógrafos latinos-americanos com produção da última década do século 20 e que não fossem artistas que estivessem com foco na vertente do terceiro mundo – índio, pobreza, favela etc. Ele queria mostrar pessoas que tivessem trabalhos que discutissem a questão da linguagem não com o olhar do exotismo, mas, sim, com o da criação”, diz Fernanda. “Comecei o projeto em 1994 e ninguém falava sobre gordura, a não ser para falar de dieta. Quando propus a pesquisa, a proposta era levantar fotografias de mulheres gordas nuas que já existissem ou de outros fotógrafos ou publicados em revistas pornográficas específicas. Queria esse material para fazer um trabalho de colagem. A proposta era criar uma nova representação para esse corpo que normalmente é discriminado”.



“A gordura, hoje, é considerada uma doença e ninguém fala o contrário. Isso é um grave erro. Não penso que seja uma doença, necessariamente. Existem magros doentes e magros saudáveis, assim como existem gordos doentes e gordos saudáveis. Converso muito com médicos e existe realmente uma gordura prejudicial. Os americanos comem uma comida podre, de fast food, e essa gordura é nociva, claro. Agora, existe gordura de constituição. Sempre existiram gordos no mundo e gordos saudáveis. A medicina atual cria um discurso para rebater aquilo que considera grave – e essa obesidade fast food é grave mesmo –; então, vai com toda a força e violência contra o corpo gordo.



As pessoas têm um preconceito misturado com medo. Os gordos têm um preconceito enorme com a própria gordura, porque se sentem culpados. Quem é gordo tem o corpo errado, e esse corpo precisa deixar de existir, quando deveria ser: você não está bem de saúde, precisa emagrecer um pouco, normalizar suas taxas e tal. Isso cria problemas de personalidade gravíssimos. O discurso médico, da moda e da publicidade é um agravador muito grande desse quadro”.



O estudo mais recente sobre obesidade no Brasil é de 2003. Segundo a pesquisa, realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 40% da população adulta do Brasil apresentam excesso de peso. As mulheres representam 13,1% desse percentual. O índice usado na pesquisa foi o IMC (Índice de Massa Corpórea), pelo qual se divide o peso (em quilos) pela altura ao quadrado (em metros). O procedimento utilizado não consegue detectar o percentual de pessoas que tem algum tipo de problema de saúde em virtude da obesidade, muito menos as pessoas com excesso de peso que são saudáveis. O que realmente importa em toda a discussão, independentemente de pesos e medidas, é que cada um – gordinho ou magrinho – seja feliz.

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