domingo, 12 de janeiro de 2014

O lado bom da preguiça (e os males do excesso dela)

Na medida certa, a preguiça renova as energias e dá um baita descanso para a cabeça. Entenda por que não é pecado deixar para amanhã o que você pode fazer hoje

Mariana Sgarioni


A má fama da preguiça esconde os benefícios da "arte da não fazer nada"
Foto: Vida Simples
Vamos esclarecer uma coisa: preguiça é a arte de não fazer rigorosamente nada. Isso quer dizer nada de oficialmente produtivo, bem entendido. A hora da preguiça pode ser um momento de contemplação. Pode ser coçar as costas por horas a fio. Pode ser tirar uma soneca. Afinal, cada um faz nada do jeito que achar melhor. O que importa é apreciar esse momento de devaneio, de recolhimento e quietude como algo que pode - e deve - ser incorporado a sua vida.

A má fama da preguiça é algo que vem passando de geração para geração e foi construída ao longo dos tempos, atingindo em cheio o Ocidente mais especificamente a partir da Era Cristã - sim, porque, na Grécia antiga, aqueles que ficavam largadões, dando asas ao livre pensamento, eram considerados seres especiais, que ficavam mais próximos dos deuses.

A obrigação de se divertir

"Numa sociedade como a nossa, que vive debaixo da égide do capital, as pessoas são meros instrumentos de acumulação. É como se não houvesse lugar para quem resolver ficar fora do mercado de trabalho, ainda que seja por breves momentos", explica Olgária Mattos, professora de filosofia da USP. "Mesmo no lazer, estamos contaminados por essa cultura do trabalho. Ficar em casa, ler, dormir ou se recolher para o descanso geralmente são consideradas opções para as pessoas solitárias, pouco criativas e desinteressantes. Lamentavelmente, há uma cobrança geral por ter o que fazer", completa.
Prova disso são as pessoas que tiram férias e se queixam que voltaram ainda mais cansadas do que quando saíram. Entupir-se de programas, passeios, visitas a museus, parques de diversões e uma infinidade de atrações é como se fosse uma obrigação - é a reprodução da lógica do mercado de trabalho nas horas vagas. Todas essas opções de entretenimento podem ser muito atraentes, mas elas não precisam preencher o tempo todo. "Saborear o momento presente via reflexão, contemplação e devaneio é uma das mais genuínas formas de encontrar quietude interna, um grande prazer da vida. E vamos admitir que é bem mais difícil encontrar essa mesma quietude num shopping center ou um parque temático, por exemplo", diz Martin Seligman, psicólogo americano da Universidade da Pensilvânia que estuda e pesquisa nada menos do que a tão sonhada busca pela felicidade.

Morosidade que faz bem

Quem cultiva a arte de não fazer nada tem bons motivos para comemorar. Os pesquisadores alemães Peter Axt e Michaela Axt- Gadermann passaram anos estudando o assunto e chegaram às seguintes conclusões, publicadas no livro The Joy of Laziness ("A alegria da preguiça", ainda sem edição brasileira): levantar cedo causa estresse e prejudica a saúde; uma soneca no meio do dia ajuda a prolongar a vida; e, se o objetivo for viver mais, então você deve evitar o excesso de exercícios físicos.

Outros cientistas, estes da Universidade de Pittsburg, nos Estados Unidos, acompanharam mais de 12 mil pessoas durante nove anos e chegaram à conclusão de que aquelas que se entregavam ao repouso nas férias tinham menos chance de sofrer de problemas cardíacos.
Além de ajudar a viver mais, a moleza pode inspirar a genialidade. Pelo menos é o que garante o procrastinador convicto Tom Hodgkinson, jornalista britânico, autor do livro que carrega o sugestivo título Como Não Fazer Nada. "René Descartes não saía cedo da cama nem por um decreto. Deixaram ele ficar ali, pensando. Se ele tivesse levantado muito cedo, acabaria ocupado demais com tarefas rotineiras, e não teria tempo de perceber e propagar ao mundo a teoria de que existimos porque pensamos", teoriza. Isso para não falar do patrono desta reportagem, Dorival Caymmi, que, dizem, sequer saiu da rede para compor algumas das mais lindas canções de que se tem notícia.
Não tenha medo de procrastinar... Sair da cama mais tarde pode fazer muito bem!
Foto: GettyImages

Mais qualidade e menos quantidade

Aderir à indolência é uma arte. E, como tal, deve ser feita sem preocupações. Caso contrário, ela não trará nenhum efeito benéfico nem para a mente nem para o corpo. Mas o que fazer então? Entregar-se de corpo e alma à frouxidão total dos músculos? Não é bem assim. Até porque é bom lembrar que moleza em excesso pode ser sinal de depressão, uma doença séria que requer cuidados médicos.
Mas um bom passo para começar a admitir uma dose de preguiça gostosa na vida seria tentar diminuir o número de tarefas a cumprir diariamente - mais qualidade com menos quantidade. Você já deve ter ouvido isso em algum lugar, inclusive. Demócrito, pensador grego do século 5 antes de Cristo, já dizia que ninguém pode ser feliz tendo muitas coisas a fazer. "Ocupe-se pouco para ser feliz", escreveu.

Entregue-se sem culpa

Imaginar nossa vida com espaço para a preguiça pode ser meio complicado. Toda vez que estamos de bobeira, olhando para o alto, a primeira sensação que bate é "será mesmo que não tenho nada para fazer?" E vem a danada da culpa.
Mas, antes de assumir a culpa de que há milhões de afazeres no mundo à sua espera e levantar-se correndo da rede, vale uma breve reflexão. São só alguns minutinhos, não se preocupe. Mas eles podem valer muito, acredite!

Preguiça demais às vezes é depressão. Conheça os principais sintomas:

ISOLAMENTO - fique atento aos exageros da introspecção.
MELANCOLIA - uma pontinha indefinida de tristeza durante 15 dias ou mais.
DESINTERESSE - a falta de entusiasmo para coisas boas da vida, como se divertir e namorar, deve acender uma luzinha.
ESTRANHAMENTO - sensações que dificultam a execução de atividades normais.
FADIGA - pouca energia para enfrentar o dia-a-dia e indisposição até para imaginar algum tipo de ação.
POUCA CONCENTRAÇÃO - dificuldade de raciocínio, de estabelecer uma meta, de manter o foco.
ANSIEDADE - irritabilidade excessiva, falta de confiança no amanhã e insegurança na hora decidir.
SONO OU INSÔNIA - os extremos: querer se entregar ao sono o tempo todo ou varar a noite ligadão.
MORBIDEZ - pensamentos freqüentes na morte e idéias recorrentes de suicídio.
APETITE MALUCO - fome de leão ou então a inapetência total ¿ até para aquela comidinha predileta.

Fonte: Ricardo Moreno, coordenador do grupo de doenças afetivas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo

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